5º Encontro Nacional da Rede Brasileira de Justiça e Paz

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Entre os dias 27 de fevereiro e 1º de março de 2026, realizou-se, na Casa Dom Luciano, o 5º Encontro Nacional da Rede Brasileira de Justiça e Paz, que teve como tema “Sinodalidade e profecia para fortalecer a democracia no Brasil: o papel das Igrejas nas Eleições Gerais de 2026”. O encontro reuniu representantes de diferentes organismos eclesiais que atuam no campo da justiça, da paz e da defesa dos direitos humanos, constituindo um espaço de reflexão, análise da realidade e planejamento de ações pastorais diante dos desafios sociais e políticos do país.

Participaram do encontro representantes de Comissões de Justiça e Paz de diversas dioceses e regionais, bem como integrantes da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, articulando esforços em nível nacional. Destacou-se também a presença significativa da Vida Religiosa Consagrada, especialmente por meio da Conferência dos Religiosos do Brasil – CRB, representada por religiosas e religiosos de diferentes congregações, regionais e da Comissão da JPIC. A participação da CRB evidenciou o compromisso histórico da vida religiosa consagrada com a promoção da justiça social, a defesa da dignidade humana, a construção da paz e no cuidado da criação, reafirmando sua vocação profética no acompanhamento das realidades sociais e na animação das comunidades eclesiais.

A programação foi organizada em três eixos metodológicos: “Celebrar/ Ver”, “Celebrar/Discernir” e “Celebrar/Agir”, inspirados na tradição pastoral da Igreja latino-americana, que busca integrar espiritualidade, análise da realidade e compromisso transformador. No primeiro dia, 27 de fevereiro, o eixo “Celebrar/Ver” foi dedicado à análise eclesial e à leitura de conjuntura socioambiental, econômica e política. A reflexão inicial contou com a participação virtual de Dom Vicente Ferreira, que apresentou uma análise eclesial sobre o momento vivido pela Igreja no Brasil e o caminho da sinodalidade como horizonte pastoral para a vida e a missão da Igreja.

Na sequência, realizou-se uma análise mais ampla da conjuntura brasileira. O deputado Reimont apresentou uma leitura do cenário político e socioambiental, destacando os desafios enfrentados pela democracia brasileira e a necessidade de ampliar a participação social na construção de políticas públicas comprometidas com o bem comum. Em seguida, Gilberto Carvalho abordou os principais temas econômicos e as perspectivas para as Eleições Gerais de 2026, ressaltando a importância da economia solidária e da promoção de modelos econômicos que priorizem o trabalho digno e a redução das desigualdades sociais. A advogada Cristina Gross Villanova apresentou uma análise da situação da segurança pública no país, com enfoque nos direitos humanos. Sua exposição destacou os desafios enfrentados na construção de políticas de segurança que respeitem a dignidade da pessoa humana e enfrentem de modo estrutural as causas da violência.

No sábado, 28 de fevereiro, o eixo “Celebrar/Discernir” aprofundou a reflexão sobre o papel profético das Igrejas na sociedade brasileira. A mesa de debates reuniu diferentes assessorias que contribuíram para ampliar a compreensão dos desafios atuais. Romi Bencke refletiu sobre a necessidade de uma postura profética diante da manipulação religiosa promovida por setores da extrema-direita, ressaltando a responsabilidade das comunidades cristãs em promover uma leitura crítica da realidade à luz do Evangelho. O Prof. Cesar Kuzma apresentou uma reflexão sobre a espiritualidade sinodal, enfatizando que a sinodalidade implica processos de escuta, diálogo e discernimento comunitário. A dimensão ecológica foi aprofundada por Moema Miranda, que apresentou uma análise histórico-crítica da crise socioambiental contemporânea. Sua reflexão foi desenvolvida a partir de uma leitura histórica e teológica fundamentada na tradição marxista e na teologia da libertação, especialmente na perspectiva do Departamento Ecumênico de Investigações – DEI. A exposição destacou a necessidade de compreender as raízes estruturais da crise ecológica e de promover uma transformação das relações sociais, econômicas e culturais que sustentam o atual modelo de desenvolvimento. Já Daniel Seidel apresentou elementos da encíclica Fratelli Tutti aplicados ao Projeto Encantar a Política, destacando a política como espaço de promoção da fraternidade e do bem comum.

Ainda ao longo do encontro, foi desenvolvido e apresentado o plano estratégico de atuação da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. O plano busca fortalecer a articulação nacional das comissões e ampliar a incidência da Igreja em temas relacionados à democracia, aos direitos humanos e à participação cidadã, especialmente no contexto das eleições de 2026. A programação incluiu também trabalhos em grupo, nos quais os participantes elaboraram propostas concretas de ação pastoral e social. Entre as iniciativas apresentadas destacam-se a elaboração de uma cartilha eleitoral, a produção de materiais formativos para redes digitais e a promoção de processos de formação política destinados a agentes de pastorais e organismos eclesiais.

No dia 1º de março, no eixo “Celebrar/Agir”, foram partilhadas as propostas elaboradas pelos grupos e realizados debates em plenário para definição de encaminhamentos comuns para a Rede Brasileira de Justiça e Paz, na qual a Comissão de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC) faz parte. Também foram aprovadas, por unanimidade, três moções em nome da Comissão Brasileira de Justiça e Paz: uma sobre a nova guerra no Oriente Médio; outra em apoio aos povos originários tupiniquim e guarani de Aracruz, no Espírito Santo; e uma moção de pesar e repúdio à violência sofrida pela Irmã Nadia Gavanski e pelas mulheres brasileiras.

O encontro reafirmou a importância da articulação entre os diversos organismos da Igreja comprometidos com a promoção da justiça e da paz. Nesse contexto, destacou-se de modo particular a presença da Vida Religiosa Consagrada, cuja atuação profética continua sendo fundamental na animação das comunidades, na defesa dos direitos dos mais vulneráveis e no desenvolvimento de iniciativas pastorais voltadas à construção de uma sociedade mais justa, solidária e democrática.

Fr. Paulo Cintra, OSA.

Ordem de Santo Agostinho